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Amor, videogames, religião, criatividade, drogas... Como nosso cérebro se relaciona com tudo isso e muito mais é constante tópico de pesquisa dos cientistas. Tão importante e complexo, esse órgão, porém, ainda é um grande desconhecido. E o pouco que se sabe surpreende a cada dia.

"O que acontece quando nos apaixonamos ou fazemos um cálculo matemático ainda é um mistério. Nesses casos, e em muitos outros, temos apenas um mapa de quais regiões estão ativadas e quais as funções delas. Estamos muito longe de conhecer o cérebro" - afirma o Acadêmico Roberto Lent, professor e pesquisador da UFRJ.

Militante da divulgação científica desde a década de 1970, o neurocientista reúne no livro "Sobre neurônios, cérebros e pessoas", da Editora Atheneu, artigos a respeito de descobertas que nos fazem avançar um pouco no oceano de neurônios.

Os videogames, apontados como vilões durante muito tempo, por exemplo, são reabilitados por Lent no livro: estudos comprovam que os jogadores ganham maior capacidade de concentração. Em outro artigo, entendemos porque agimos diferente quando estamos apaixonados. A frase "o amor é cego" tem seu fundo de verdade, sim. Quer derrubar outros mitos sobre o cérebro ou descobrir curiosidades? Confira os textos abaixo.

Intuição dos criadores

Nosso cérebro é uma máquina que funciona bem. Uma parte dele é responsável pelo nosso lado, digamos, pouco convencional. A capacidade de criar e improvisar está ligada a essa região. No entanto, outra área garante que não sejamos anticonvencionais o tempo todo, o que inviabilizaria qualquer chance de vida em sociedade. Pesquisas com artistas revelaram que, quando o córtex pré-frontal (bem no alto da testa) é desativado e suas regiões posteriores são liberadas, a criatividade se expande. Segundo Lent, isso faz sentido porque essa área do córtex monitora a adequação de nossas ações em relação ao ambiente. Quando estivéssemos menos comportados e livres das obrigações e convenções do dia a dia, seríamos mais criativos.

Nós mesmos produzimos maconha!

A afirmação acima pode parecer uma louca viagem, mas tem fundamento científico: nosso cérebro produz uma substância da mesma família da maconha (Cannabis sativa). Seu papel é modular a conversa entre os neurônios: em alguns momentos mais animada, em outros mais lenta. Essa espécie de "endomaconha" (o nome científico é endocanabinoides) é que deixa você mais sonolento ou mais ligado. A descoberta dessas substâncias foi feita a partir de uma pergunta simples: por que nosso cérebro é capaz de reconhecer as propriedades de uma planta? Porque nosso corpo produz alguma coisa parecida. Lent explica que nossos neurônios possuem "leitores" em suas membranas, que, ao entrar em contato com uma substância, leem e enviam uma resposta para o resto do corpo. Neste caso, atuando nas sinapses. "Mas isso não significa que a maconha não causa males", diz Lent. Pelo contrário: quando se fuma, vem muito mais do que canabinoides. Além disso, nosso cérebro não produz sua própria maconha descontroladamente. Ninguém vai sentir "barato" algum por causa dela.

Tamanho não é documento

"Cabeção", "cabeçudo", "crânio"... Não faltam nomes carinhosos para associar o tamanho da cabeça com a inteligência. Mas a neurociência já descartou essa possibilidade. "O teste do Q.I, que já provocou muita discussão, pode ser usado, desde que sejam respeitadas as diferenças entre os indivíduos, como grau de escolaridade, padrão social e nacionalidade", explica Lent. Recentemente, uma pesquisa feita na Escola de Medicina da Universidade da Califórnia associou a inteligência com o tamanho de certas partes do cérebro. No estudo, pessoas mais inteligentes tinham áreas maiores que a média. O problema é que pessoas menos inteligentes não tinham essas regiões menores que a média. Ou seja, essa história de chamar de "cabeçudo" não tem nada a ver, sacou?

O amor é cego

Por que fazemos loucuras quando estamos apaixonados? Bem, a resposta está no nosso cérebro. Nesses momentos, uma determinada região passa a receber mais sangue, seu metabolismo acelera e há maior atividade entre os neurônios, além da liberação de hormônios. Ao mesmo tempo, a área do lobo frontal, associada ao raciocínio lógico e à matemática, fica menos ativa. Lent afirma que é desse equilíbrio (ou seria desequilíbrio?) que vêm as decisões impensadas que tomamos.

Religiosidade

Lent diz que as religiões são um fenômeno cultural, mas a religiosidade humana também pode ser compreendida pela neurociência. Cientistas americanos mapearam o que acontece no cérebro das pessoas quando se relacionam com a fé. Os crentes veem seu deus como uma pessoa que pode intervir nas suas vidas e agem de acordo com o que creem que ele deseja. Isso é conhecido como teoria da mente. Uma associação similar ocorre, por exemplo, quando encontramos pessoas na rua: podemos achá-las feias, atraentes, mal encaradas etc. A partir daí, agimos de acordo com a imagem que fazemos delas.

Videogame faz bem

"Larga desse videogame!". Todo mundo já ouviu essa frase alguma vez na vida. Da próxima vez que seus pais mandarem essa, você já tem uma resposta à altura: ao contrário do que muita gente acha, jogos eletrônicos aumentam a nossa capacidade de concentração. Cientistas afirmam que, durante os jogos, acontece um fenômeno chamado plasticidade transmodal, ou seja, são muitas ações acontecendo ao mesmo tempo em vários pontos da tela. O exercício de focar em pontos diferentes, o que ativa circuitos cerebrais, "educa" nossa atenção. Isso pode ajudar na hora de ler um livro, por exemplo. Lent reconhece que o videogame foi satanizado durante muito tempo, mas seu potencial deveria ser mais aproveitado, principalmente no ensino. O problema, para o neurocientista, está no excesso. Não dá para só jogar e deixar de fazer atividades físicas, conversar e assistir a filmes.

Mente x coração

Se alguém lhe perguntar em qual parte do corpo está o quartel-general de suas emoções, o que você responderia? Provavelmente, cérebro. Só que uma pesquisa feita por cientistas alemães mostrou que o coração também guarda marcas da chamada personalidade emocional. Coração partido não é só figura de linguagem: a partir de eletrocardiogramas, exames que geram gráficos dos nossos batimentos, os pesquisadores criaram formas de identificar se somos chorões, durões, amorosos. Lent relembra que, na Antiguidade, o coração era considerado bem mais importante do que o cérebro. Os egípcios, por exemplo, acreditavam que ele era o guardião da alma e responsável pela razão e pela emoção.