ProfiCiência - informação sobre profissões em ciência Conheça as carreiras científicas
No fim de 2012, a organização não-governamental britânica Engineering UK publicou um relatório intitulado O Estado da Engenheria 2013, afirmando que "a economia britânica precisa de um setor de engenharia vibrante, inovativo e bem-sucedido". O texto aponta a perspectiva de abertura de mais de 2,7 milhões de empregos no setor até 2020, mas levanta, também, desafios que o Reino Unido terá de enfrentar para manter sua proeminência na área, com especial ênfase na questão educacional.

"Cada vez mais evidências mostram que a variação na qualidade do ensino tem um grande impacto nos resultados", diz o texto. "Todas as outras coisas sendo iguais, a diferença entre um professor 'excelente' e um 'ruim' equivale a um nível" na nota de avaliação dos estudantes do ensino médio.

A Engineering UK promove eventos como a Feira Big Bang, uma competição de projetos científicos voltada para estudantes de 11 a 18 anos, e o Engenheiros do Amanhã, que busca levar informação sobre a carreira e alguma experiência prática de engenharia às escolas.

O relatório sobre o estado da engenharia no Reino Unido levanta a necessidade de se estimular as vocações na área. Para atender à demanda futura e garantir a inovação e o crescimento econômico, "é preciso aumentar de modo substancial o número de jovens estudando matemática e física" do ensino médio em diante, adverte o trabalho, que pede que o número de formandos em engenharia no Reino Unido dobre até 2020.

A preocupação com a quantidade e qualidade da formação de recursos humanos nas chamadas áreas STEM - ciência, tecnologia, engenharia, matemática - não é uma exclusividade britânica. O Brasil, dentro de sua realidade de país em desenvolvimento, também busca enfrentar esse desafio, por meio de iniciativas como o programa Ciência Sem Fronteiras. A reportagem do Inovação Unicamp conversou com o principal executivo da Engineering UK, Paul Jackson, sobre a crescente importância global dos profissionais ligados à ciência e ao desenvolvimento de novas tecnologias.

A escassez, atual ou futura, de profissionais nas áreas científicas e tecnológicas parece ser uma preocupação quase universal, tanto no mundo desenvolvido quanto nos países em desenvolvimento. Por que o sr. acredita que isso acontece - por que os países acreditam que precisam de mais cientistas e engenheiros, e por que os estudantes não se interessam mais por essas áreas?


As novas tecnologias oferecem oportunidades em escala global, e a falta de profissionais de engenharia é um problema em todo o mundo. A engenharia está no centro da agenda de crescimento do Reino Unido, e muitos países reconhecem a necessidade de garantir o fluxo futuro de talentos para a área.

A percepção e a adesão às áreas científicas e tecnológicas estão melhorando, mas ainda há desafios importantes adiante. Embora ciência, tecnologia, engenharia e matemática sejam consideradas "desejáveis", elas são mais desejáveis para os jovens com mais de 17 anos, o que é muito tarde para as escolhas de matéria de estudo importantíssimas que são feitas dos 14 aos 16 [na Inglaterra, Irlanda do Norte e País de Gales, estudantes de 14 a 16 anos podem escolher as disciplinas para as quais serão testados para obter o Certificado Geral de Ensino Secundário].

As disciplinas STEM são consideradas menos desejáveis no momento em que os jovens estão fazendo as decisões cruciais que moldarão suas carreiras. No Reino Unido, com menos meninas que meninos optando pela ênfase em ciências aos 14 anos, as garotas estão, efetivamente, excluindo-se das carreiras de engenharia, embora, dos 17 aos 19 anos, 35% delas venham a considerar essa carreira desejável.

É crucial que encontremos os canais mais eficazes para promover os temas e as carreiras STEM entre os jovens.

Em sua opinião, quais as melhores estratégias para atrair os jovens para as carreiras STEM, para despertar e sustentar o interesse em ciência e engenharia?


Ótimos professores de ciências e matemática, um envolvimento contínuo em atividades de ciência e tecnologia, boa informação sobre carreiras e aconselhamento, a partir do início do ensino médio, são essenciais para atrair jovens para as carreiras STEM.

Nossos programas Feira Big Bang e Engenheiros do Amanhã são exemplos do impacto que pode ser obtido. Em 2011, 11% dos jovens de 12 a 16 anos diziam que uma carreira em engenharia era desejável. Esse número cresceu mais de quatro vezes entre os jovens envolvidos com o Engenheiros do Amanhã e a Feira Big Bang.

O sr. acredita que a mídia e a divulgação científica têm um papel a desempenhar para despertar a vocação dos jovens para as áreas científicas e tecnológicas? O encolhimento do espaço para a cobertura de ciência nas mídias tradicionais é um problema, nessa perspectiva?


Uma representação positiva da ciência e da tecnologia na mídia desempenha um papel importante, ao elevar o perfil das carreiras STEM. A cobertura da Feira Big Bang ajuda a atingir um grande número de pessoas com a mensagem sobre as carreiras STEm que é central ao programa. A mídia deveria ser parte de um compromisso maior para a promoção das carreiras de ciência e engenharia, e que deve também envolver o governo, os empresários, o setor educacional e os órgãos de representação profissional.

Às vezes surge uma tensão entre as ciências "puras" e "aplicadas". Como o sr. vê essa questão? Acredita que deveria haver uma divisão estrita de trabalho, com as universidades fazendo a parte "pura" e as empresas a "aplicada", ou seria legítimo esperar que a universidade também busque aplicações para o "mundo real"?


Creio que a resposta é colaboração. A melhor base para o engenheiro está numa mistura de ciências puras e aplicadas. Indústria e educação têm a oportunidade de beneficiarem-se mutuamente, ao trabalhar em conjunto para desenvolver cursos para estudantes que garantam que se formem com o nível de conhecimento e habilidade que as empresas precisam.