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Nascido em Três Pontas, Minas Gerais, no ano de 1953, José Oswaldo Siqueira era o mais velho de quatro irmãos, cujos pais não estudaram e cuidavam de uma fazenda de café e leite, no sul do Estado. "Nasci na cidade, mas fui criado na zona rural, onde aprendi a ler com todas as deficiências que a região tinha, as aulas às vezes eram num banco debaixo de uma moita de bambu".

No 2o ano primário Oswaldo foi morar com um tio na cidade. Sua preocupação era aprender a ler escrever e contar, pra saber quantos balaios de café tinham sido colhidos no dia e coisas assim. Mas gostava de estudar, "parecia que tinha uma coisa efervescendo dentro de mim, eu não me contentava com aquela informação da escola". Na casa do tio, ele convivia com 11 primos mais velhos. Vários já estudavam fora - Veterinária, Engenharia, Geologia. "Ali eu comecei a entender que a formação de uma pessoa ia além de saber ler e escrever."

Quando terminou o ginásio, Oswaldo escolheu fazer um curso técnico de Química Industrial paralelamente ao curso regular - o científico, como era chamado o ensino médio na época. "Mas foi o curso técnico que aguçou em mim a curiosidade científica, mexíamos com laboratório e achei interessante."

Aos 18 anos foi fazer o chamado "tiro de guerra", que era o serviço militar. Fez o curso de cabo e cismou que queria fazer Química Bélica, adorava a idéia de saber como fazer as substâncias explodirem. "Cheguei a ir conhecer a Aman, em Resende, pensando em seguir a carreira militar. Mas lá eu vi que não conseguiria estudar tanta Química quanto eu queria." Foi então para a casa de um tio que era engenheiro agrônomo em Juiz de Fora e se preparar para fazer o vestibular para Química na UFJF.

Um dia foram visitar a escola em que seu tio tinha estudado, a Escola Técnica Superior de Lavras. Oswaldo já tinha estudado um pouco de Química Agrícola na escola técnica e tinha se entusiasmado na época. "Quando chegamos lá, vi um anúncio de inscrições abertas para o vestibular. Falei com o meu tio que talvez fosse bom tentar, ele pagou a inscrição e eu passei."

Na primeira semana de aula Oswaldo percebeu que sabia mais Química que alguns professores, por causa da escola técnica. Começou a trabalhar no laboratório de Química Inorgânica e passou a ajudar o professor a preparar as aulas e coordenar as atividades de laboratório. "Resolvi que queria naquele momento começar alguma pesquisa minha. Estruturei lá então um experimento que era estudar a dureza da água de uma região que tinha muito calcário", relembra o pesquisador.

José Oswaldo conta que o Brasil gastava muito naquela época com importação de fertilizantes e em função disso o governo lançou uma campanha visando o desenvolvimento de alternativas para os fertilizantes. "O potássio é elemento fundamental para a agricultura e o Brasil não tem reservas. Mas temos maciços imensos com silicato de potássio, são minerais que têm potássio, só que em concentração baixa".

Já tendo estudado o assunto anteriormente, Oswaldo começou a fazer muitas perguntas ao professor, Fernando Bahia, sobre os possíveis aproveitamentos do silicato. E tanto perguntou que o professor convidou-o para ajudá-lo num projeto de pesquisa para estudar um silicato de potássio com grande ocorrência numa certa região de Minas, visando a sua utilização como fonte de fertilizantes.

Eles precisavam avaliar se as plantas eram capazes de aproveitar o potássio desse mineral. Foram então a Poços de Caldas coletar um pouco do solo, para misturar a ele um tanto de rocha com silicato moída, para ver como as plantas ali inseridas reagiriam. Mas o que viram é que as plantas não conseguiam usar aquele potássio.

"Aí fui atrás de professores de mineralogia de geologia e pedi que me mostrassem a estrutura do silicato. Aí vi que ele estava preso no meio de silício, ferro e cálcio e era necessário quebrar aquela molécula". Oswaldo explicou que esta quebra pode ser realizada de diversas formas: quimicamente, usando um produto químico para dissolver a rocha; termicamente, usando uma energia física para romper a estrutura cristalina e mudar a forma; ou biologicamente, usando fungos que produzissem substâncias que atacassem aquele mineral e soltassem o potássio. "Escolhi esse caminho e foi assim que passei a estudar Microbiologia e Bioquímica dos solos."

Nesta fase, Oswaldo passou a dar aulas de Química Orgânica, Inorgânica e Físico-química em sua cidade de origem, às sextas e sábados. Depois, sem ter sequer um mestrado, foi contratado para professor da Universidade.  Foi quando surgiu a oportunidade de fazer a pós-graduação fora. "Lá foi muito difícil, tinha a barreira da língua e eu tinha medo de não corresponder às expectativas". Mas a curiosidade e a vontade de trabalhar com o desconhecido é que movem um cientista: em quatro anos e meio Oswaldo completou mestrado e doutorado pela Universidade da Florida.

A pesquisa desenvolvida na pós-graduação foi sobre sinais moleculares que as plantas produzem quando estão estressadas e desejam atrair para si um organismo mutualista, que estabelece uma relação simbiótica com ela, grudando nas raízes e ajudando-a a absorver água, nutrientes e tudo mais. Lá ele se juntou a um fisiologista de plantas e a um químico de produto naturais para desenvolver a pesquisa. "O segredo era captar essa substância sinalizadora, identificá-la e sintetizá-la. Foi o que fizemos". O grupo conseguiu sintetizar essa sustância e patenteou um produto chamado mycronite.

Alguns anos depois, José Oswaldo voltou aos EUA, agora na Michigan State University, para fazer um curso de pós-doutorado. Seu objetivo era cultivar um organismo que na natureza só se multiplica na presença do hospedeiro vivo. "É um fungo que só fecha seu ciclo de vida numa raiz viva. O desafio era cultivar esse fungo longe da raiz."

Em vez de trabalhar com a planta, Oswaldo trabalhava com células vegetais. "Quando punha uma célula vegetal com algum tipo de estresse junto com o fungo, ele crescia muito mais. Postulamos então que quando a planta estava estressada ela mandava um sinal para estimular o fungo a crescer na rizosfera, penetrar na terra e estabelecer a relação simbiótica."

Quando estava nos Estados Unidos, Oswaldo confessa que se sentiu em alguns momentos incapaz. "Minha formação na graduação foi muito eclética e nos EUA o ensino é verticalizado, mais aprofundado. Quando a disciplina era de aprofundamento eu sofria e quando era de visão geral - de agricultura, meio ambiente - eu ia bem." Mas ao final do curso recebeu o Award for Excellence in Graduate Studies en Soil Science for the Year of 1983, concedido anualmente aos doutorandos de maior destaque naquele programa da Universidade da Flórida.

Para ele, inteligência é a capacidade de lidar com o desconhecido e em alguns momentos ele achou que sua capacidade era limitada. "Mas aos poucos eu fui pegando, fui observando e hoje tenho plena certeza de que não é preciso ser um gênio para ser um cientista. O que é preciso é ter um sonho, acreditar nele, ter alguns fundamentos, entender que a ciência é constituída de filosofia e de métodos". Oswaldo diz que se o estudante for capaz de entender e exercitar isso, sendo persistente e tendo capacidade de formulação, pode ir longe. "Hoje em dia ninguém descobre nada sozinho."

Recebeu o Prêmio Santista 2000, por sua contribuição à Biotecnologia Agropecuária. No mesmo ano de 2000 tornou-se membro da American Association for the Advancement of Science (AAAS). Em 2001 foi eleito membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e recebeu o título de Comendador Antônio Secundino de São José, outorgado pelo Governo do Estado de Minas Gerais.

Em 2003 foi eleito membro da Academia de Ciências do Mundo em Desenvolvimento (TWAS) e em 2007 recebeu o Prêmio Mérito Universitário, outorgado pelo Conselho Universitário da Universidade Federal de Lavras. O cientista acha que chegou muito além do que esperava e até do que merecia, em suas palavras. E José Oswaldo Siqueira considera que seu trabalho hoje como dïretor de projetos especiais no CNPq "é uma grande oportunidade de servir ao país."