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1940, Fortaleza, Ceará. De famílias simples, os pais de Francisco César de Sá Barreto não tiveram instrução universitária. Em meados dos anos 40, a família mudou-se para o sul do país e após alguns anos fixou-se em Belo Horizonte, Minas Gerais. Estudou no Colégio Estadual de Minas Gerais, de muito prestígio naquela época.

Segundo César, naquela época só se fazia Medicina, Engenharia ou Direito. Ele começou a trabalhar muito cedo, aos 15 anos, numa seção de Engenharia Sanitária do antigo Serviço Nacional de Malária. "No começo eu copiava mapas, fazia desenho cartográfico. Depois comecei a fazer desenhos topográficos. Mas meus colegas mais velhos já eram alunos da faculdade de Engenharia."

Ele conta que gostava muito de Matemática, mas de Física não gostava porque o professor era muito ruim no colégio. Em Química não tinha muito interesse. Só sabia que não queria trabalhar com Engenharia. No último ano do curso científico, correspondente ao ensino médio de hoje, César buscou orientação vocacional para fazer sua escolha de carreira. "Existia em Belo Horizonte um Serviço de Orientação e Seleção Profissional com o Prof. Pedro Parafita de Bessa, psicólogo da UFMG. Era difícil conseguir vaga, era um processo longo. Escrevi minha biografia e fiz diversos outros testes e atividades."

"Numa entrevista final com o orientador ele me disse que arquitetura não seria uma boa opção, embora eu desenhasse bem. Ele falou sobre os tipos de inteligência e não fechou em nenhuma carreira específica, o que fortaleceu minha confiança nele, mas sugeriu Ciência - 'a Física, por exemplo, porque não?'. Eu pensei que a Física usa a linguagem da Matemática, de que gostava, então fui ver onde é que se fazia Física e fiz o vestibular", conta César.

Entrou na graduação na UFMG em 1962, foi aprendendo e gostando. Teve a opção de ir pra Brasília, após graduar-se em 1965, fazer a pós-graduação com o Prof. Jayme Tiomno, mas veio a crise de Brasília e o seu potencial orientador voltou para o Rio de Jaeniro. "Fui me encontrar com ele, que deixou claro que não tinha nada para me oferecer naquele momento, que não sabia o que ia acontecer com ele e que eu deveria procurar outro caminho", narra Sá Barreto.

Começou então a cursar o primeiro mestrado da UFMG, em 1966, criado pelo Prof. Ramayana Gazzinelli. Através de um apoio da Fundação Rockefeller, César conseguiu uma bolsa para fazer doutorado nos EUA, em 1967. "Fui para Pittsburgh, onde na época havia uma boa comunidade científica brasileira, era um ambiente bom. Era difícil a comunicação na época, os contatos com o Brasil eram poucos", lembra Sá Barreto. Ele queria trabalhar com ressonância magnética, uma área de pesquisa que o Prof. Ramayana queria implementar na UFMG, para que quando voltasse pudesse dar continuidade ao seu trabalho teórico dentro de um grupo experimental.

Nesta fase, porém, César teve a oportunidade de ir para a Universidade da Califórnia estudar aquilo que ele realmente queria - Dinâmica de Sistemas Magnéticos na área de Física de Matéria Condensada. Ele passou sete meses lá, defendeu a tese em Pittsburgh e voltou pra Minas. "Quando cheguei aqui, em 1971, a Física Teórica no Brasil ainda era muito pequena, não tinha quase nada. Acabei mudando de área porque, para criar massa crítica, resolvemos fazer na UFMG um grupo voltado para o estudo de Sistemas Ferroelétricos, que tinha físicos teóricos e experimentais. Cada um abriu mão de suas pesquisas próprias para fortalecer essa área e o departamento ficou conhecido na época principalmente por causa desse grupo, que durou dez anos", rememora o pesquisador. Sua principal linha de pesquisa, desde então, é a Mecânica Estatística de Transições de Fase.

César Sá Barreto sempre deu aulas, tanto na graduação quanto na pós-graduação. Orientou dezenas de mestres e doutores, tendo exercido diversos cargos na universidade, inclusive o de reitor. Atuou também na Sociedade Brasileira de Física e em órgãos do governo ligados à sua área, prestando consultoria. Já publicou dezenas de artigos, proferiu dezenas de seminários no país e no exterior e participou de inúmeras conferências nacionais e internacionais.

Atualmente é Professor Emérito da UFMG, onde já foi pró-reitor de pesquisa e reitor. Foi também secretário de Educação Superior do Ministério da Educação e presidente da Sociedade Brasileira de Física, além de ter sido membro de diversos Conselhos e Comitês ligados ao governo.

Recebeu a Medalha Jubileu do CNPq em 1981, a Medalha da Universidade Federal de Santa Maria em 1994, o Prêmio Fundep da UFMG em 1996, quatro Medalhas do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração, a Medalha Santos Dumont Categoria Ouro e a Grande Medalha da Inconfidência, ambas em 1998; a Grande Medalha do Mérito Educacional de Minas Gerais no ano seguinte; a Medalha Gustavo Capanema do Governo de Minas Gerais em 2000, assim como a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico do Presidente da República do Brasil, no mesmo ano; e o título de Grande Oficial da Ordem Nacional do Mérito Educativo em 2002, ano em que também tornou-se Cidadão Honorário de Belo Horizonte.