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Minas Gerais, cidade de Morada Nova, 1941 - ano em que nasceu Alaíde Braga, a mais velha de sete irmãos. Segundo ela, esperavam que se tornasse professora primária, era o habitual para uma moça como ela. "Mas eu não queria ficar ali naquela cidade, limitada. Eu sonhava, queria conhecer o mundo, então a primeira coisa era fazer um curso superior. Meu pai de início estranhou, mas deixou."

Foi fazer Farmácia porque sempre teve curiosidade sobre os medicamentos e quando entrou para a faculdade foi a primeira bolsista de Iniciação Científica da UFMG, orientada pelo Prof. Aloísio Pimenta, uma figura muito importante em Minas. "Foi ele quem promoveu a reforma da universidade criando os institutos, fez a mudança da universidade para a Pampulha."

Depois de acabar o curso de graduação, Alaíde tentou fazer o doutorado com o Prof. Otto Gottlieb em Brasília, mas era o ano de 1964 e veio a revolução. "Ainda conseguimos - uma turma de professores de todas as partes do país que havia se reunido para trabalhar com o Prof. Gottlieb - instalar o primeiro laboratório de Química da Unb, íamos dar início ao curso de pós-graduação. Mas o clima era muito tenso, todo dia era notícia de que a polícia entrou na universidade, que fulano foi preso, que sicrano foi preso, então houve uma reação por parte dos professores, uma demissão coletiva e o grupo do Prof. Otto se dissolveu", conta a professora.

Ela, como boa mineira, voltou pra casa. Já havia sido criada a pós-graduação na UFMG, onde Alaíde defendeu o doutorado com orientação do Prof. Otto, terminando em 1967, já na linha de Química de produtos naturais. "Existe uma cadeira muito antiga no curso que se chama Farmacognosia, que é o estudo de plantas como medicamentos. A parte de síntese foi para outra disciplina chamada Química Farmacêutica. E eu me fascinei por esse aspecto, de partir de uma planta qualquer, lidar com o acaso, a surpresa, identificar os extratos que se tira dela, se consegue uma quantidade maior ou menor e então se analisa sua química. O que eu queria mesmo era descobrir em cada uma sua utilidade, mas isso só foi possível muito depois."

Em 1968 conseguiu uma bolsa para fazer o pós-doutorado na Universidade de Sheffield, na Inglaterra, trabalhando em síntese orgânica e estudos conformacionais por ressonância magnética nuclear. Voltou para a UFMG um ano depois, onde já foi professora de Química Orgânica na Escola de Engenharia e desde 1991 é Professora Titular de Fitoquímica, na Faculdade de Farmácia.

Alaíde Braga Já formou mais de 60 mestres e doutores, e foi uma das criadoras do curso de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da UFMG. Sua principal linha de pesquisa é a Química de Produtos Naturais, abordando temas de Fitoquímica, Síntese de Substâncias Naturais Biologicamente Ativas, Estudo Químico-Biológico de Plantas Medicinais, em colaboração com vários pesquisadores da área biológica. Colabora com pesquisadores estrangeiros da Alemanha, da Colômbia e dos EUA.

Hoje está aposentada, mas como foi homenageada com o título de Professora Emérita da UFMG continuou com seu laboratório, que cresceu bastante recentemente graças a parcerias com instituições estrangeiras conseguidas pela Professora Alaíde. Seu mais novo sonho agora é a criação de um Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento de Fármacos a partir da Biodiversidade Brasileira.

"Atualmente, a Ciência brasileira avançou bastante, os cursos de pós-graduação foram bem ampliados, portanto já garantimos a formação de recursos humanos. Já há alguma interdisciplinaridade, mas muito modesta para levar a um produto. Para transformarmos a biodiversidade brasileira e os resultados de pesquisa que temos em produto, precisamos de uma instituição multidisciplinar dedicada a isso, integrando a universidade e a empresa. Senão, o Brasil continuará tendo a riqueza em suas mãos e deixando-a escorrer pelos dedos", finaliza a pesquisadora.